sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Igor: príncipe da paz


À "Jék Leen"

Como de costume, minha escrita hoje é impulsionada por uma amiga: uma conversa com a Jacque (através do nosso abençoado Miranda) fez eu me lembrar de um momento muito bonito da minha vida (que eu havia guardado em algum lugar muito profundo e esquecido dentro de mim), ao dizer que “Igor” significa “Príncipe da Paz”, em russo...

Eu fazia cursinho no Objetivo e simplesmente detestava aquele lugar: odiava aquele povo besta, baba-ovo de professor; odiava aquelas patricinhas burras; odiava aquela cantina absurdamente cara e, mais ainda, o ônibus para a minha casa, que era sempre o último a chegar. Apenas uma coisa naquele cursinho me fazia feliz: o Igor. Eu sempre o achei extremamente carismático, inteligente, sério, dono do sorriso mais doce e dos olhos cor de mel mais brilhantes que eu já vi, mas apaixonei-me de verdade quando o vi chegar com uma camiseta onde lia-se a seguinte mensagem "Amigo não se compra: adote um animal de rua". Naquele dia, ele se tornou a pessoa mais admirável do mundo (ou pelo menos do meu mundo...). Ele não falava comigo (claro, eu era anonimamente deixada de lado no meio daquele monte de corpos esculturais com marcas de biquíni e cabelos com mechas loiras), mas eu adorava quando ele se sentava à minha frente, pois podia ficar observando os movimentos de sua mão quando escrevia, o jeito delicado e ao mesmo tempo inexperiente com que ele arrumava os óculos, a atenção que ele dava para os outros, os olhinhos cor de mel que iam ficando mais escuros e profundos conforme ele ficava com muito sono e, principalmente, o sorriso que iluminava, não só seu rosto, mas o mundo inteiro. Eu mesma não podia evitar um sorriso ao vê-lo sorrir. Meu presente na vida era observá-lo, isso já era uma felicidade e eu devia ser grata por isso.

Alguns meses se passaram e eu continuei a observá-lo, vendo-o tímido, sentindo-se até incomodado com as meninas que se sentavam ao seu lado e faziam de tudo para ter um pouco de sua atenção.

Certa noite, ao sair do cursinho, vi que estava chovendo. Em menos de 10 min a rua lotou-se de carros e ficou deserta novamente. Quase todo mundo havia ido embora de carona ou ligado para os pais. Sobraram apenas eu, uma menina que estava esperando o namorado (que ainda ia sair da faculdade), dois meninos e o Igor. A chuva não parecia dar trégua e a rua era um pouco inclinada, então bem em frente à entrada do cursinho havia uma concentração de água semelhante a uma cachoeira. O namorado da garota chegou e, conforme ia ficando cada vez mais tarde, os dois garotos resolveram sair correndo na chuva mesmo. Eu já tinha perdido o ônibus das 23:10, sabia que o próximo só viria às 23:30. Esperei mais alguns minutos, tinha esperança de que a chuva fosse passar, mas quando até mesmo o segurança do cursinho foi embora, tive medo de ficar ali até tarde. Então peguei minha sombrinha e fui andando para o ponto de ônibus. Enquanto andava (a calça já pesada de tão molhada que tinha ficado após passar pela "cachoeira"), ouvi um barulho de passos molhados atrás de mim. Eu sabia que era o Igor, mas senti vergonha de chamá-lo. Continuei andando. Apertei o passo e percebi que ele estava andando mais rápido. Senti pena, pois a água estava gelada e eu sabia que ele não tinha guarda-chuva, então virei-me para trás e disse:
- Igor, quer uma carona?
E ele sorriu. Seu cabelo já estava todo desfeito, a camisa já estava grudada no corpo e sua calça estava caindo de tão pesada. Ele estava lindo. Entramos os dois embaixo do guarda-chuva e em silêncio caminhamos até o ponto de ônibus. Ao chegarmos, ele me olhou com uma desconfiança inocente e disse:
- Como você sabe meu nome?
Não contive uma risada, pensando "mal sabe ele o quanto sei a seu respeito...", mas respondi apenas;
- Ué, a gente é da mesma sala...
- Mas eu não sei seu nome.
- Não sou popular como você...
- Qual é o seu nome?
- Andréa...
- Bom, então, muito prazer, Andréa! - e me beijou o rosto - Qual curso você pretende prestar?
- Letras...
- Ah, legal! Eu estou na dúvida entre Letras, História e Sistemas de Informação.
- Nossa...você deve ter inteligências múltiplas, né?rsrs
- rsrs é nada! É que não encontrei nada que eu possa dizer "cara, eu sou mesmo muito bom nisso".

A chuva começou a engrossar e em poucos minutos estava chovendo granizo. Ele, então, entrou ainda mais debaixo do guarda-chuva. Seu corpo estava literalmente grudado ao meu, pois estávamos ensopados, mas olhávamos para o chão, constrangidos, cada um para um lado. Não sei no que ele estava pensando, provavelmente estava com medo de que eu fosse agarrá-lo ou coisa assim, mas a única coisa que me preocupava era se ele seria capaz de sentir meu coração batendo desesperadamente, como se pedisse pra ficar ali perto dele por mais um pouquinho. Às vezes eu sentia que ele estava me olhando e sentia meu rosto queimar. Parecia que havia uma bigorna pendurada no meu pescoço e eu não conseguia levantar a cabeça. Quando deixava de sentir os olhos cor de mel sobre mim, levantava timidamente a cabeça, e quando percebia que ele estava olhando, tratava de abaixá-la novamente. Se eu inclinasse minha cabeça para frente mais 3 cm, seria capaz de sentir sua respiração. Nas vezes em que eu consegui levantar os olhos, podia ver que ele sorria, e eu já nem sentia mais o frio e as pedrinhas q caíam sobre a gente.

O silêncio ensurdecedor foi interrompido por um barulho de ônibus dobrando a esquina: era o meu...

Nunca quis tanto que aquele ônibus tivesse se atrasado. Ofereci minha sombrinha a ele, pois a chuva de granizo ainda não tinha parado, mas logo atrás chegou um ônibus que o deixaria perto de casa. Não tive coragem de beijá-lo no rosto ao me despedir, disse apenas um "tchau" muito tímido e entrei no ônibus sem olhar para trás. Quando alcancei a catraca, ele já não estava mais lá. Tudo deve ter durado 15 min, mas me senti mais viva do que se tivesse vivido 15 anos.

sábado, 27 de setembro de 2008

Epifania


Num dia desses da semana passada, a Cecília entrou na aula de Latim com uma cara mto triste. Depois de algum tempo, me escreveu um bilhete dizendo que uma amiga tinha terminado um namoro de três anos. Eu li o bilhete e, sem hesitar, escrevi na linha de baixo:
- Ué, o que tem? É a coisa mais normal do mundo...
- Déia, eu não te entendo! Como uma pessoa tão romantica como vc, que chora vendo vídeo clipes de amores que duram para sempre, pode ser tão fria às vezes?
- Não estou sendo fria, Ceci, só acho que o fato de ter acabado não significa que não foi amor. As coisas são assim mesmo, têm começo, meio e fim. E às vezes é melhor. Não consigo imaginar três anos da minha vida com a mesma pessoa.
- Déia, sabe qual é o seu problema?
- Não.
- Vc acha que o amor só é bom enquanto for platônico, enquanto você não puder ficar com a pessoa. Parece que vc vê relacionamento amoroso como uma coisa suja, que despurifica o amor.
- Sim. É exatamente isso. Parece que o fato de ter a pessoa torna o amor desimportante, trivial e rotineiro. Eu não teria saco, por exemplo, pra ir ao shopping todo final de semana com a mesma pessoa, ou ter que ficar recebendo ligações o dia inteiro, ou me justificar a cada 10 minutos de atraso, ou negar a naturalidade do amor que nasce por outras pessoas. Não gosto disso. Sou fiel a mim, aos meus sentimentos. A pior traição é aquela que aplicamos a nós mesmas. Pq ficar com uma pessoa, negando um sentimento que se tem por outra? Namoros nos levam ao comodismo, e eu odeio isso. Não tenho mais saco pra essa coisa de namoro, de corresponder a expectativas, vc sabe disso...
- Ah, mas vc não teve sorte, só namorou gente doida, deve ter ficado traumatizada.
- Não namorei "só" gente doida, o Everton era super normal, um excelente namorado, eu não tinha do que reclamar. Mas foi exatamente o fato de ele ser tão perfeito que fez com q eu não gostasse dele. Eu gosto da incerteza, do desafio, da conquista...depois, perde a graça.
- Vai dizer que vc gosta de ficar sozinha? Vai dizer que não sente falta de alguém te esperando no ponto de ônibus numa noite bem fria? Vai dizer que não sente falta de acordar à noite com seu celular vibrando por causa de uma mensagem dizendo "Oi, só escrevi pra desejar boa noite"? Vai dizer que não sente falta de ter alguém que goste dos seus defeitos, das suas chatices, do seu mau humor? Vai dizer que não sente falta de alguém que te conheça, que saiba quando ficar quieto, que saiba quando falar a coisa certa...Sei lá, Déia, eu acho que vc precisa de alguém como todo mundo precisa.
- Sim, concordo com vc. Gostaria, sim, de ter alguém. Mas nunca vou encontrar alguém q me aceite do jeito q eu sou, q aceite o meu desleixo, o meu mau humor, a minha hipocrisia, a minha chatice, a minha aversão sexual, a minha desatenção e, principalmente, meus 18 cachorros e suas 18.000 pulgas rsrs.
- Huahauahaua. As pulgas são a pior parte.
- rsrsrs.

O professor encerrou a aula mais cedo, estava cansado. Saímos da sala conversando sobre isso, sobre quem poderia ser o "par ideal" pra mim. Parei no corredor pra vestir uma blusa de lã, pois estava muito frio. Quando saí do prédio, meu amigo me ligou e pediu q eu o esperasse em frente ao prédio da História, pois me daria uma carona.
Então a Ceci e eu fomos pra lá e ficamos conversando enquanto ele não chegava.

- Mas Déia, pelo menos vc consegue se imaginar com algum cara? Tem vontade de ficar com algum?
- Ah...com o Alfredo talvez...
(Cecília vira os olhos, faz uma cara de nojo e diz um "afff").

- Olha, Ceci! Um cachorro! Aaaaaaaaaaaaaaaahhhh! Que lindo!!! Nossa, um cachorro tão lindo desses jogado aqui...olha o pêlo dele, Ceci. Que lindo!!!
- É...olha o dono dele vindo aí atrás...
- Nem vem com essa história, não estou roubando o cachorro de ninguém (isso pq uma vez eu tava levando um cachorro pra comer alguma coisa ali na Fradique e o dono dele veio atrás rsrsrs).
- Não, Déia...é sério.

Quando eu virei pra trás, havia um rapaz atravessando a rua. Ele chegou perto de mim:

- Esse cachorro é seu?
- Meu? Não...achei que fosse seu..
- Ah...eu tava lá embaixo na Farmácia e ele veio me seguindo, meu...fiquei de coração partido.
(segundo a Cecília, nessa hora foi possível ver coraçõezinhos em cima da minha cabeça. )
- Nossa...eu sei exatamente como vc se sente...
- Ah, meu...tadinho...e ele é lindo! Tem um pêlo tão lindo...

Quando ele falou isso, me assustei, e automaticamente olhei pra Ceci, q tava me olhando com um sorriso surpreso e os olhos arregalados. Eu sabia o que ela estava dizendo. Então eu disse:
- Ah, aqui tem vários cachorros...tem uma bem gorda lá embaixo, perto da Farmácia que é bem brava. Não sei se vc a conhece.
- Sim! Conheço! Uma vez fui acariciá-la e ela me mordeu rsrs. Tem um lá no Bandejão q eu fotografei esses dias. Ele ficou lindo na foto!!! Gordo, com uma cara imponente rsrs.

Eu não podia fazer nada além de concordar com tudo q ele dizia, eu fui mordida pela mesma cachorra!!! Estava boquiaberta, e pensei "talvez ele aceite as pulgas". Mas como Murphy está sempre ao meu lado, meu amigo logo chegou... ¬¬

Queria ter tido mais tempo pra falar com ele, queria ter dito que sou vegetariana, protetora dos animais, q tenho 18 cachorros, q sonho em comprar um sítio pra cuidar de todos os animais abandonados q encontrar, mas não consegui falar nada. Só conseguia encará-lo e me sentir maravilhada, como se finalmente tivesse encontrado algo de meu no mundo. Mas meu amigo buzinou, irritado, e eu tive que ir. Dei um beijo na Cecília, que estava tão surpresa quanto eu e que me olhava com o olhar mais amigável do mundo, como se ela fosse minha mãe e estivesse dizendo "eu te avisei...". Não beijei o rapaz, que por sinal, não parava de falar. Acho que ele queria ficar ali conversando. Talvez tanto quanto eu. Não perguntei seu nome, nem sei qual curso ele faz.

Entrei no carro, cumprimentei o Kléber e disse:
- Já teve a sensação de que o amor está tentando entrar na sua vida?

sábado, 23 de agosto de 2008

Bárbara o quê???


Esse negócio de ir pra faculdade todos os dias da semana tem contribuido de forma determinante no avanço do meu processo de retardamento mental.

Ontem, durante a aula de Literatura Portuguesa, não conseguia parar de rir!!!

E isso é muito incômodo quando se está sentado na fileira da frente, bem na cara da professora.

Enquanto ela falava, tinha mania de ficar passando a mão na boca, e eu imediatamente lembrei do vídeo da Heloísa Helena perdendo um dente durante um debate. Ela estava lá falando, escandalosamente (como sempre) quando, de repente, surge algo voando de sua boca. Algo nada mais nada menos que seu dente! E mesmo sem o dente ela continuou falando, como se nada tivesse acontecido.

Não sei pq fiquei imaginando que o dente da professora também ia sair voando, e comecei a rir feito uma mongol.

Quando consegui esquecer a Heloísa, a prof disse que precisávamos ler um texto de uma tal de Bárbara que escreveu sobre o método laechmanniano. Eu olhei pro Flávio:

- Bárbara o quê???
- Sei lá, Bárbara com leishmaniose.

Como se isso não bastasse, me lembrei da Barbara Streisand cantando com seu nariz enorme. E depois, do episódio de South Park em que ela se transforma num daqueles monstros enormes de séries de super heróis japoneses (tipo Jaspion, ou Godzilla), cantando e destruindo tudo pela cidade, sendo vencida por Robert Smith, do The Cure. Hauahauahaua. A imagem é essa do começo do post.
Se isso não for associação absurda, não sei mais o que é.

domingo, 20 de julho de 2008

Memórias de infância

Ceci: Dri, vc gostava da Barbie?
Dri: Sim, adorava. Mas só tinha uma.
Ceci: Ah, eu tinha um monte de Barbies. Tinha até o Ken.
Dri: Vc tinha o Ken??? Que tudo!!!
Ceci: Bom, não era bem um Ken...na verdade, era uma Barbie do Paraguai que eu cortei os cabelos e vesti uma roupa de homem.
(risos).
Ceci: Vc gostava de Barbies, Déia?
Déia: Sim. Cortava as cortinas da casa da minha avó para fazer vestidos para elas.
(risos).
Déia: Na verdade, eu costumava desmontar minhas Barbies e enterrá-las no quintal.
(silêncio)
Alguém: Credo, Andréa.

Dercy Gonçalves is dead. Boo hoo…

Sinto pena dela. Não por ter morrido, mas por ter vivido tanto anos.
É engraçado ver do que a esperança humana é capaz: a morte é a única certeza que temos nessa vida, mas temos sempre esperança de que não teremos que encará-la.
A morte de alguém costuma ser sempre um acontecimento triste. Mesmo aqueles “sem nome” que moram nas ruas devem ter alguém sentindo sua falta e esperando ansiosamente pelo dia em que voltarão para casa, querendo acreditar que eles estão por aí, tentando consertar a vida e voltar como uma pessoa melhor. É melhor pensar isso do que ter que encarar a triste realidade de que, provavelmente, eles foram enterrados numa cova rasa e de curta estadia.
Parece-me que todos os esforços da humanidade têm sido direcionados à grande conquista de se viver alguns anos mais. Embora seja perfeitamente entendível que as pessoas queiram viver mais, às vezes me pergunto se viver tanto assim realmente faz as pessoas mais felizes. Às vezes eu acho que viver tantos anos faz com que nos esqueçamos de quem realmente fomos, fazendo os bons momentos de nossas vidas tão distantes que começamos a nos perguntar se realmente existiram.
Eu, por exemplo: ainda tenho 22 anos e me pergunto se é mesmo verdade que fui tão feliz quando tinha 15, 16, 17 anos. Provavelmente, quando envelhecer, vou ficar pensando que era extremamente feliz aos 22, mas não tinha consciência disso.
Às vezes acho que morrer no auge de sua vida, de sua juventude, é a melhor forma de morrer. Vejo a vida como um gráfico: existe um ponto em que a gente apenas sobe, até alcançar a felicidade. Mas, dali para frente, é só queda. Acredito que seja muito mais interessante morrer conhecendo apenas o lado bom da vida, em vez de viver com o lado sombrio de se decepcionar com pessoas, com a condição humana, com a morte de quem amamos e, principalmente, com o vazio que a vida se torna com o passar dos anos. Uma atitude um tanto egoísta, eu sei. Afinal, se a morte dos outros é o fato mais triste na vida de alguém, devo considerar que tenho “outros” que sentirão minha falta e que terão a sensação de terem perdido alguma coisa, além daqueles que morrerão comigo. Mas, vendo a outra face do egoísmo, as pessoas ainda têm esperança e insistem em acreditar que o futuro pode ser melhor. Claro que elas não fazem muito para que realmente seja melhor, mas a esperança tem movido a humanidade desde sempre, tornando meu egoísmo desimportante. Então, acho que estamos quites.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Cinza

Nunca gostei dessa cor. Nunca comprei uma roupa dessa cor. Nem acessórios, nem cobertores, nem cadernos e na minha caixa de lápis de cor, o cinza permanecia ali, firme, completo, inteiro, quase nunca usado. Enquanto das outras cores restavam apenas tocos de lápis (que eu mal conseguia segurar na hora de colorir alguma coisa), eu evitava trazer o cinza para o meu frágil mundo de papel.

Apesar do meu esforço, a imponência do lápis cinza parecia começar a se revelar, escrevendo e colorindo a minha vida, infiltrando-se nela enquanto eu crescia. Então eu comecei a gostar dos dias nublados, dos clipes em preto e branco, das roupas com listras pretas e brancas, e das pessoas brancas enfiadas em roupas pretas.

Assim como o cinza vaga entre o limite extremista do branco ou do preto, eu vago entre o limite do ser e o não ser: tenho inteligência masculina e traumas femininos; sonho com a felicidade, mas cultuo a minha tristeza, como se ela me fizesse uma pessoa mais nobre; sou frágil, mas profunda demais para ser resgatada de dentro de mim; sou teimosa, ao mesmo tempo que sou insegura; sou eu, ao mesmo tempo que quero ser o outro; sou a verdade que se revela através da mentira; a tênue linha entre o amor e o ódio; entre a bondade do perdão e a justiça da vingança; a esperança das tardes de maio e as saudades das noites de verão; prego a multiplicidade do amor, mas sou fiel; uma pessoa cheia de sonhos, mas incapaz de torná-los realidade por achar que o mundo seria cruel demais com eles; reveladora dos outros, mas um segredo para mim mesma; defensora do amor, mas incapaz de realmente amar; alguém que não consegue enxergar a barreira entre o sonho e o real; sou a sensação de morte ao sentir o choque com a vida; o medo da vida maior que o da morte; nem o homem, nem a mulher; nem o bom, nem o ruim. Apenas uma hipocrisia muito grande que vem à tona num momento de confusão. Apenas algumas palavras tolas que tentam explicar uma realidade atordoada e inconcebível. Apenas uma pessoa que se apaga gradativamente entre a queda do ser ao não ser. Tornando-se essa coisa amorfa, inexpressiva, ambígua, perdida. Apenas a cinza de alguém que poderia ter sido.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O dia mais triste da semana...

Ontem. Pensei que fosse chorar um rio. Um dia desses, senti que ia morrer, e o pior: não tive medo. Pelo contrário: tive vontade de ir, quem sabe lá eu veja as coisas de outra forma? Quem sabe lá o impossível aconteça? Quem sabe lá a vida exista? Sinto falta de sonhar com coisas boas...com as coisas da vida que me são negadas. Sinto saudade. Do quê? Não sei. De mim, talvez. De um tempo em que tudo era mais simples, fácil e bonito. Cada vez mais tenho perdido a vontade de mudar, de querer fazer alguma coisa. Agora, sinceramente, nada mais importa. Nada mesmo.

Ah, vou colar aqui uns trechos de Beijar o Céu, livro que estou lendo (e que é mto bom, por sinal):

"Melancolia é a fusão sofisticada de dois sentimentos contraditórios. É uma beleza que bate fundo, ou uma mágoa doce. Qualquer um que tenha idolatrado sua dor, tentando prolongá-la, brincando com a idéia de exacerbá-la; qualquer um que tenha sido levado a demorar-se dentro dela, mesmo quando já pudesse estar recuperado há muito tempo, preferindo a companhia de fantasmas à falta de sonhos da sociabilidade cotidiana, qualquer pessoa nessas condições entende a melancolia."

"Morrissey sempre viveu a respirou melancolia, sempre endeusou em segredo o abismo entre si a pessoa amada, a diferença que torna possível amar, mas ilusório possuir, mero engano. Assim, no final, somos todos amantes não correspondidos. E a melancolia é o motivo por que ele valoriza e mantém obsessivamente aberta antigas feridas."

"Essa recusa em se tornar responsável e motivado, em conseguir um trabalho, em incorporar a brutalidade e o desencanto previstos num emprego “para juntar dinheiro”. Essa recusa em ser conivente com a falta de sonhos que é a vida adulta, chegando ao duvidoso ponto de se apegar teimosamente a um estado de insatisfação eterno."

Parece que não sou a única. Que bom. Quem sabe eu encontre alguém que etsteja procurando o mesmo...

PS: Eu realmente gostaria de saber quem é o seu "você".